quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Na mente alheia: por Ela

São dois contos complementares - dois olhares sobre determinada situação, o outro conto posto já.
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Na mente alheia: por Ela

Um bar; três horas da manhã; uma mesa grande farta de cervejas, porções de carne-de-sol e batata-frita; oito amigos que, entre um gole e outro, riem alto, conversam muito. Exceto dois indíviduos: Ele e Ela.

Multidão de vozes, entra e sai constante de pessoas, garçons atravessando dum lado ao outro.
Numa das minhas mãos um cigarro a ser aceso: eu metida em meus próprios pensamentos. Hora ou outra eu pescava alguma conversa, puxava um gancho, tecia comentários que se tornavam voláteis ou eram ignorados. Então, voltava a entornar mais um gole de cerveja.
Ele apenas calado, indíviduo-instinto-observador. Nalgum momento ria  de um comentário ali, outro lá e, então, levava o copo de cerveja à boca.
A essa altura meus sentidos não correspondiam à digna sobriedade. E certa alegria me tomava, crescendo e saindo aos tropeços em risos que pareciam sem porquê. Em meu peito convergiam: êxtase e ânsia que explodiam numa latência em minha pele.
Então lancei a ele um olhar: como se me despisse, sutilmente, para entregar todo o desejo. Olhei-o , como se mergulhasse num rio turvo, disposta a sentir os espasmos do movimento de meu corpo em contato com a densidade da água. Mas Ele perdeu o olhar, voltou a atenção ao arranjo da mesa, como que observasse a flor, numa inquietação incômoda.
Desejei cruzar nossos olhos na altura do silêncio, na medida perfeita do meu pulsar, e que, assim, pudéssemos estar, por alguns segundos infinitos, fora daquele lugar, nalgum trecho perdido do tempo. 
Mas Ele levantou-se, dirigiu-se ao banheiro. Eu? engoli meu olhar 43 e retornei às conversas vagas do resto da mesa, vencida.

2 comentários:

Yamãnu B. disse...

Bom, muito bom...

Délos disse...

Nossa, eu me senti observando o movimento dessa mesa. muito excelente! parabéns.

 

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